sexta-feira, 24 de abril de 2009

A cidade branca de Arequipa

Saindo de Nasca embarcamos em outro ônibus, dessa vez com destino a Arequipa, segunda maior cidade do Peru depois de Lima. A viagem durou nove longas horas, já que não conseguimos vaga no leito e tivemos que ir no executivo. Deu para dormir um pouco, mas longe de ser algo confortável. Durante determinado momento da viagem acordei e não sei se fiquei com medo ou impressionado. A gente estava cruzando uma serra (Arequipa fica a mais de 2 mil metros do nível do mar), no meio do deserto. A paisagem era simplesmente maravilhosa, mas a estrada que a gente estava era uma coisa terrível para quem está num ônibus. Conhecem a serra de Taubaté, que sai em Ubatuba? Pois é, a gente estava numa serra 10 vezes pior. O jeito foi tentar dormir e não pensar no que poderia acontecer.

Arequipa está para o Peru como o Rio Grande do Sul está para o Brasil. É uma cidade que buscou durante muito tempo sua independência, chegou a emitir passaporte próprio no passado e até hoje é chamada de República de Arequipa. Pelas cidades mais ao norte, como Lima, é vista como traidora, por não oferecer resistência alguma às invasões chilenas nas guerras do passado. Como o Chile perdeu a guerra, Arequipa é hoje deixada em segundo plano pelos próprios políticos, que também não são bem vindos por lá.



De qualquer forma, Arequipa é uma cidade belíssima. Conhecida como a “Cidade Branca”, Arequipa está ao pé de dois grandes vulcões. A atividade vulcânica da região permitiu o desenvolvimento de uma rocha chamada silliar. Por ser leve e resistente praticamente toda a cidade é construída com ele, e como tem uma coloração branca, é a responsável pelo simpático apelido de Arequipa.






É em Arequipa que está também o Convento de Santa Catalina. Esse convento chegou a manter mais de 200 mulheres enclausuradas para virarem freiras no passado. Hoje são pouco mais de 20 e que já não precisam ficar enclausuradas e conseguem ter uma vida em comunidade. O interessante de conhecer igrejas, mosteiros e conventos é que a gente sempre descobre umas coisas interessantes. Andando por lá eu acabei vendo as freiras retratadas em pinturas, mas todas de olho fechado. O motivo para essa coisa curiosa é que elas eram retratadas somente depois de morrer e por isso sempre apareciam de olhos fechados. E elas só poderiam ter uma pintura depois de mortas porque uma imagem própria era considerado um pecado da vaidade.







Mas como para tudo nessa vida se dá um jeito, eles arrumaram uma maneira de burlar essa regra. Tem um freira lá, a madre sor Ana de los Angeles Monteagudo, que entrou no convento aos quatro anos de idade e ficou enclausurada até morrer aos 80, que já foi beatificada e está para ser considerada santa pelo Vaticano. Ela tem uma pintura de olhos abertos, afinal, seria chato ter uma foto de uma quase santa só de olho fechado, né? Essa pintura, no entanto, foi feita na época da beatificação e resolveram fazer a mulher de olhos abertos.

Arequipa é uma cidade fantástica, grande, com uma histórica rica e com a religião sendo algo muito valorizado. Existem igrejas muito bonitas, uma influência de jesuítas muito forte e a disputa com Lima, que deixa um clima de rivalidade no ar. Assim como em Lima, Arequipa tem taxistas muito chatos, que também passam o tempo todo buzinando atrás de passageiros, mas mesmo assim vale o passeio.






Nasca e suas curiosas linhas

Paracas é um lugar muito bonito, mas não tem nada para se fazer por lá. Ainda bem que só ficamos duas noites por lá e que o hotel era muito bom. Caso contrário daria para dizer que seria um sacrifício passar essas noites por lá.

Antes de deixar por definitivo a região de Paracas ainda deu tempo de conhecer um lugar que não estava no roteiro. O guia que estava com a gente ofereceu uma carona até Ica, cidade que é considerada a capital da região (até agora estou tentando entender a divisão geopolítica do Peru) e fica uns 60 quilômetros de Paracas. Como nosso ônibus passaria necessariamente por Ica, decidimos aceitar a carona para conhecer o um lugar novo.


Ica é visivelmente maior do que Paracas. Não que isso represente muita coisa, mas para quem está afim de conhecer a região talvez seja mais interessante se hospedar em Ica e ir até as Ilhas Balestas de carro ou taxi para não ficar em Paracas. O hotel que a gente passou a tarde em Ica é tão bom quanto o de Paracas e a cidade oferece algumas coisas a mais para fazer, como um passeio pela praça ou pelo menos um número maior de ruas para andar.

A brincadeira em Ica durou só uma tarde e no mesmo dia embarcamos para Nasca, para conhecer suas famosas linhas com formas geométricas e de bichos. De Ica até Nasca foram mais quatro horas de ônibus, mas que passam relativamente rápido quando a companhia é agradável.


Chegamos em Nasca a noite e fomos direto para o nosso hotel, uma rede chamada como Casa Andina, que oferece conforto, segurança e um bom serviço para os turistas. Não tem muito luxo, mas para o propósito da viagem está mais do que suficiente. Nasca é um cidade muito pequena, com não mais do que cinco ruas, que vive basicamente dos turistas e pesquisadores que vão estudar as linhas, que fomos sobrevoar apenas no dia seguinte pela manhã.

Ninguém sabe ao certo a origem dessas linhas, só que elas foram feitas por uma civilização pré-inca chamada Nasca. Alguns defendem que essas linhas eram canais de irrigação para permitir o desenvolvimento de um povoado, que mais tarde se transformaria em cidade. Outros dizem que é alguma forma de comunicação visual e os mais místicos, novamente, que serviriam de referência para extraterrestres. O fato é o seguinte: a coisa é bastante curiosa.


O tamanho dos desenhos surpreende. Existem figuras com mais de 400 metros de comprimento por 200 de largura. Para ter uma referência, um campo de futebol grande tem 100 metros de comprimento por 65 de largura, ou seja, uma figura é do tamanho de quatro campos de futebol. Considerando que as linhas dos desenhos foram feitas no solo, com uma profundidade de aproximadamente 60 centímetros e quase um metro largura, sem uma referência visual do alto, já que não existem montanhas altas o suficiente para isso ali por perto, dá para dizer que esses desenhos são um mistério.



O único jeito de ver esses desenhos é do alto. Por isso a gente tem que pegar um teço-teco e passar meia hora sobrevoando as linhas para tentar ver alguma coisa. As fotos não ficaram lá grande coisa porque o sobrevôo é para quem tem estômago. As manobras são muito bruscas e como o avião é pequeno a pressão que se sente é muito forte. Não e incomum algumas pessoas passarem mal, o que justifica os saquinhos de vômito no banco. Além disso, o aeroporto tem uma estrutura de enfermagem já preparada para dar um suporte para quem passa mal no avião.
Vamos combinar uma coisa, tem que ter um pouco de criatividade para ver o que eles dizem que dá para ver...rs

Dá para ver o astronauta no meio da montanha?
E a aranha mais ou menos no meio da foto?

O condor no canto superior do lado direito tá muito difícil?

Esse é mais fácil, vai? O colibri bem no centro da foto
Uma enfermeira está pronta para receber quem passa mal com um equipamento jurássico de pressão, uma maca e um chá de coca para dar aquela animada nas pessoas. Conversando com a enfermeira que estava de plantão naquele dia, descobrimos que ela atendeu um brasileiro que passou mal, que disse ter se apaixonado por ele e que viria atrás dela. Ela até tinha recebido um email dele, em que ela acreditava ser uma declaração de amor dele. Como ela não estava com ele no dia, não deu para traduzir e bancar uma de cupidos e unir nossa amiga peruana com um brasileiro.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Paracas: deserto a beira mar

De Lima para Paracas são cerca de três horas de viagem indo de ônibus. Como a gente comprou todas as passagens e tickets, incluindo os de ônibus, não sei exatamente o valor dessa viagem, mas no ônibus leito que eu fui, incluindo serviço de bordo e um filme chato, não sai mais do que $./ 50,00 (esse é o símbolo dos novos soles, a moeda do Peru). Uma pequena sugestão para quem pensa em viajar pelo Peru: sempre que for viajar de ônibus por lá, prefira os leitos. Como as estradas estão muito boas, o leito permite descansar bastante e energia é algo que se precisa para essa viagem.

Na cidade de Paracas...Bom, não dá para chamar Paracas de cidade não. Para falar a verdade aquilo ali é um povoado, tem menos de 1.000 pessoas vivendo ali e que dependem quase que exclusivamente dos turistas que vão conhecer as Islas Balestas, umas das mais ricas reservas marinhas do Peru. A região é um deserto a beira mar, que é favorecida por uma corrente marítima fria que vem do pólo sul. Mesmo com uma temperatura de 40 graus durante o dia, é possível ver nas ilhas pingüins que se perdem no meio dessa corrente marítima.

Lá dá para ver muita coisa. Aves são aos milhões, os pingüins são mais discretos e se confundem no meio de tantos passarinhos que adoram presentear os turistas com seus dejetos. Além disso é possível ver uma série de leões marinhos, inclusive um berçário deles, onde os filhotes são carregados pelas ondas. Esse é um passeio que dura cerca de duas horas, pouco recomendado para quem enjoa no mar, mas que vale a pena ver.







Antes das ilhas, no entanto, a gente passa por uma intrigante figura conhecida como o “candelabro”. A origem dela ainda é um mistério. Alguns dizem que ele está relacionado com as linhas de Nasca (falaremos disso no futuro), outros que é um sinal para os navegantes, outros que foi feito José de San Matín, como símbolo de libertação da região dos espanhóis, e para os mais místicos que foi feito por extraterrestres. Enquanto não descobrem a origem, o fato é que a figura realmente intriga. O tamanho e o fato dela nunca se deformar são dois pontos que chamam a atenção e fazem com que cada um que vê tenha sua própria teoria.




De volta ao continente, a região é bastante simples, oferece pouca infra-estrutura, mas existem alguns hotéis simples que permitem ao turista ter onde ficar. Apesar de toda a simplicidade, foi inaugurado ali um hotel de alto padrão para quem pensa em realmente se isolar do mundo. Ele fica no meio do nada, literalmente, ou no meio do deserto ou se preferirem, mas como havia sido inaugurado há 15 dias deu para ficar hospedado nele com um precinho camarada.






terça-feira, 21 de abril de 2009

Culinária e os taxistas de Lima

Lima é uma cidade surpreendente. Tá certo que ela é a capital do País, mas ela consegue misturar cultura local, com modernidade e aproveitamento do espaço público de uma forma que chama atenção. É possível perceber o uso das praças e parques da cidade pelas pessoas sem qualquer tipo de custo, apreciar um pôr do sol maravilhoso de um mirante, como também achar no meio da rua um templo pré-inca, construído pela civilização chamada Lima, que dá nome à cidade e também enfrentar o trânsito de uma cidade grande, com oito a nove milhões de habitantes.

Dois dias em Lima são suficientes para conhecer os principais pontos turísticos da cidade, visitar museus, apreciar a paisagem, dar uma volta pelo extenso calçadão e ainda pegar um dos insistentes taxis. Eles ficam rodando e simplesmente buzinando para chamar a atenção das pessoas nas ruas. Em qualquer lugar do mundo você dá o sinal para chamar um táxi, lá eles é que sinalizam para pegar as pessoas. Uma dica para quem for pegar um, em qualquer lugar do país: negocie o valor da corrida antes que ele comece andar. Não existem taxímetros e o valor é negociado diretamente com o motorista. Se não acertar o preço antes, ele terá o direito de cobrar o que for por ter te levado, mesmo que seja uma curta distância.




A comida em todo o Peru é deliciosa. É algo leve, mas com um tempero delicioso, que oferece um sabor aos pratos que não se encontra em qualquer lugar. Em Lima é um pouco especial porque você pode comer de tudo um pouco, claro, freqüentando lugares que sejam visivelmente razoáveis. Mas eles não são poucos e no bairro de Miraflores é possível achar alguns dos melhores restaurantes da cidade e apreciar alguns pratos típicos como o “Cebiche”. O prato é composto por cortes de peixe cru, que você escolhe dentre algumas opções, temperado com limão e ervas. O negócio é muito bom, vale a pena experimentar.

Além do cebiche, não deixe de apreciar os frutos do mar de Lima. A cidade fica na costa do Pacífico, por onde passa uma corrente fria que vem do sul, em direção ao hemisfério norte e permite que uma rica e variada vida marinha se desenvolva do lado da cidade, literalmente. É possível comer camarões, lagostas, ostras e todos os tipos de frutos do mar e em tamanhos pouco comuns para nós, do litoral do Atlântico. Vale a pena comer de tudo um pouco, como nesse prato que está na foto abaixo.


E para os apreciadores das bebidas etílicas, existe uma que não pode ficar de fora do cardápio. O pisco sauer é uma espécie de caipirinha peruana. Os caras pegam o pisco, uma pinga feita a partir de uva, misturam com gelo, limão e mais algumas coisas e servem gelado, quase um frozen, num copo de caipirinha. O negócio é muito bom e dá para tomar uns dois por jantar. Em alguns lugares eles fazem a bebida com diferentes tipos de pisco, alguns mais envelhecidos, outros nem tanto. O sabor é quase o mesmo, a diferença é que a bebida fica mais ou menos leve de acordo com a idade da pinga deles. As mais velhas e mais caras deixam o pisco sauer mais leve, enquanto as mais jovens e em conta dão um sabor mais ardente. A idéia é a mesma das nossas pingas e são tomadas de acordo com o gosto do freguês.

Sem Luxo, mas com bastante conforto

Como eu já tinha dito antes, essa viagem era para ter sido feita no ano passado, sozinho e no estilo mochilão. Minha idéia era sair do Brasil por Corumbá (MS), entrar na Bolívia, pegar o famoso “trem da morte” até Santa Cruz de La Sierra, para chegar em La Paz, atravessar a fronteira com o Peru pelo Lago Titicaca, mas passando por Copacabana, para finalmente seguir para Cusco, fazer a trilha Inca e chegar em Machu Picchu. Depois de lá pegaria um avião para Lima e voltaria para o Brasil.

Esse é um dos roteiros mais tradicionais que existem, feito de trem e ônibus a maior parte da viagem. Mas como aconteceram algumas mudanças nos meus planos, como adiar a própria viagem por um ano e incluir minha namorada no roteiro, decidi também mudar o próprio roteiro.
A primeira coisa que decidimos mudar foi o modelo de viagem. O mochilão com albergues deu lugar para uma viagem mais convencional com hotéis três estrelas e mais deslocamentos de avião dentro do Peru. Aliás, a idéia de passar pela Bolívia também foi riscada dos planos e decidimos ficar só no Peru, porém, passando por mais alguns lugares, e não mais ir apenas a Machu Picchu (Cusco) e o Titicaca (Puno).

Para amarrar todos os nossos planos resolvemos entrar em contato com uma agência de viagem para colocar ordem na coisa. Como não tínhamos muito tempo para pensa resolvemos chamar o pessoal da Valência Turismo (http://www.valenciaturismo.com.br/) para fazer isso para a gente. Não compramos um pacote e nem viajamos em grupo. Na prática, a agência só comprou todos os passeios que iríamos fazer, organizou as datas, comprou as passagens aéreas e colocou em todos os passeios um guia local à nossa disposição.


O paredão do Pacífico: encostas altas separam o mar gelado da cidade ao longo de toda costa
No Peru, a gente tinha o apoio do pessoal da Condor Travel (http://www.condortravel.com/), uma agência local especializada na América do Sul, que ficava à nossa disposição para qualquer coisa, em todos os lugares, sempre com guias e um plano de saúde próprio para qualquer emergência. Para quem está afim de ir para o Peru, vale a pena entrar em contato direto com eles e pular o pessoal da Valência. A diferença é que o tratamento vai rolar em inglês ou espanhol e todo o contato será por telefone ou email. No fundo, no fundo, a gente só deixou de fazer a parte chata e burocrática, aproveitando o máximo de tempo para curtir e passear.
No final das contas, nosso roteiro ficou assim:
São Paulo – Lima (avião)
Lima – Paracas (ônibus)
Paracas – Nasca (ônibus)
Nasca - Arequipa (ônibus)
Arequipa – Puno (avião)
Puno – Cusco (ônibus)
Cusco – Lima (avião)
Lima – São Paulo (avião)
Nesse roteiro estavam inclusos todos, mas todos mesmo, os passeios, entradas em museus, preço de guia e até almoço em alguns casos. É possível que no total a gente tenha pago mais do que no esquema mochilão? Sim, muito provável, mas esse extra é compensado pelo fato de não termos que pagar taxi nem ônibus, não termos que ficar esperando para nada e, principalmente, não correr nenhum risco de ser enganado ou ter que ver os preços das coisas inflacionados pelas pessoas locais, ao perceberem que éramos turistas.
Custo total da viagem: R$ 8.600 por 12 dias, incluindo R$ 2.000 para gastos com presentes, águas, jantares, entre outras despesas não inclusas. Não tivemos nenhum luxo, mas o conforto, em todos os aspectos, foi mais do que preservado.

sábado, 18 de abril de 2009

Peru e suas (várias) maravilhas

Há tempos eu queria ir para o Peru, com objetivo final de chegar a Machu Picchu. Tentei em 2008, mas por conta de chuvas, estradas caindo e a falta de uma companhia adequada adiei meus planos. Este ano, com o clima mais apropriado e com a companhia de minha querida namorada, consegui fazer uma viagem que foi muito além da cidade perdida dos Incas. Graças à Carolina (minha namorada) fiz a melhor viagem da minha vida, conhecendo praticamente todo o sul do Peru, passando por paisagens de litoral, deserto, florestas e lugares fantásticos. Foram 12 dias de passeios, aventuras e roubadas, mas com muito bom-humor e disposição.

Esses somos nós, diretamente do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde começamos a viagem. E vamos tentar contar um pouco do que fizemos, como fizemos, com dicas e sugestões para quem pretende ir para o Peru, que vale muito a pena conhecer.